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|| Isaque de Borba Corrêa ||
 

Escritor, natural de Balneário Camboriú autor de mais de uma dezena de livros em diversas ciências. Membro da Academia Desterrense de Letras em Florianópolis e de Balneário Camboriú.

 
Tafulho
 

Quando eu era rapaz piqueno no Canto da Praia de Camboriú, às vezes não tinha nada o que fazer e quando se tinha que fazer alguma tarefa ela era chata ou enjoada: pipino. Coisa boa, neca-pau, ninguém mandava fazer. Emprego bom? Humm é ruim hein!

Minha pretensão é fazer uma série das tarefas de rapaz piqueno no Canto da Praia. Vou fazê-la por ordem cronológica ou faixa estaria sei lá. Conforme a gente ia crescendo, crescia o tamanho do pepino. Eu pelo menos, nunca arrumei uma teta. Neguinho muito mais burro que eu já fez de um tudo e eu ainda carrego o estigma de pescador. Pra poder viver um pouquinho melhor tive que comprar um táxi. Minha mãe ainda dizia: “bota as mão pru céu, mô filho”.

Filho de pescador começa numa coisinha muito divertida: dar uma voltinha de canoa. É assim que o pai pescador amarra o filho. Vamo dar uma vortinha filho? Um ano depois ele está gumitando de nojo do mar. Garrei tanto nojo do mar que nunca tomei banho na nossa praia.

O pior de tudo é levantar cedo, no cu-da-madruga, na hora do soninho bom. O Mané Germano batia na porta às 4 da manhã:

- Alivanta sôs malandro que já mei-dia!!!!
-
Como dizia o Mané Germano: puta-cus-pariu, só de lembrar já dói! O neguinho se levantava às pressas, metia uma blusinha de pelúcia e uma bermuda. A água quando respinga dentro da tal blusinha de piluça dá um desconforto que só pra doido. Levanta-se cedo e com fome. Quando muito, se bebia um gorpinho de café com farinha ou se comia um ingaço de banana ou uma rama de aimpim ou uma soca de milho ou um dedo de taiá ou ainda um brebe de carne seca ou uma vórta de lingüiça com uma bola de pirão. No inverno era muito apreciado uma perna de ova de tainha assada com café e farinha. Na época de São João dava muito amendoim torrado, que se comia com farinha e café.

Às vez, um toco de cuscu ou de biju ou ainda uma vórta de curuja, molhadinhos no café dava pra forrar o estômago e enfrentar o rebojo dos pampeiros que ia se pegar pela frente dentro de uma canoa.

Assim, lá vai o barriga-de-sete-boda com os buxo vazio, trupicando de fraco pelas veredas do Canto da Praia, esfolando o coro dos pés nas rosetas das areia ou por cima das pedras do costão da prainha. Aquela areia grossa em cima da pedra vira um sabão. Bem se fosse um sabão até que era bom, o pior era que aquilo paradoxalmente virava uma lixa. A cada escorregão a gente deixava uma nesga de pélha, daquele ossinho do lado do pé, não tem? AAAIIIIIIII!!! Num dia de frio é de amargar. A gente excomunga os antepassados até a 5ª geração por ter nascido pobre.

Quando não era areia, era o lismo. A pedra enlismada é mais falsa que uma bosta de vaca: pisou escorregou.

Tu não sabes o que é dar com a bunda de manhã cedo, no inverno, dentro d’água e molhar a tal blusinha de piluça. Bater a bunda de manhã cedo em cima da ponta de uma pedra, agaranto, não é uma coisa boa, não.

Botemos a canoa pra água: expia só, meu quirido: tu sai quentinho de uma cama, enfia as canela dentro da água gelada da prainha. Olha que o mar ali, na prainha é gelado pra cacete, nego. Lá a praia afunda de repente e tu molha bem lá dentro. Aquele suspirinho é inevitável: uuuuuiiiiiii!!!!!

Ai como era triste!!!. Bem no cu-do-inverno, no mês de julho, o frio entra pelas canelas congelando juntas e medulas. Neguinho tremia que nem uma Toyota na lenta e seus curumilhos chaqualhavam feito um cateto nervoso.

Os tocos dos dedos ficam roxos que nem uma baga de João-bolão. . O “coisa” da gente, vira uma “coisinha de nada”. 'Aquilo' fica tão miudinho, tão piquininho, que parecia que desaparecia.

Para tirar o coisapara dar uma mijadinha, ãcã, não se achava. Quando se achava, pra puxar pra fora, só fosse com a ajuda de um alicate.

Aquilo vinha para fora roxo, redondo e miudinho feito uma baguinha de biguaçu. Não tem aquela expressão que o Collor usou, o tal do “aquilo roxo”? Pois é, pescador tem também o coco roxo, não sei se de frio ou do reumatismo da água gelada, mas que tem, tem. Além de piquininho e roxinho o miserávi fica dormente de frio e nessas alturas o caboco já nem o sente mais de tão incarangado que fica.

Nesse caso ele literalmente mija no dedão do pé. É pra mode vê se esquentava a cabiçorra dos dedão do pé, que por essas horas ele já tá azul de frio.

Vez em quando se pegava um vento pampeiro, daquele que reboja e faz um currupio por detrás da ilha. Ele vem criando um ressolho na água, entra por dentro da manga da camisa e vem assubiar em vórta das zorelhas. Esse vento batia em dirridó das anca das cadeiras da gente, que deixava o malandro todo estrupiado, cramazelando a prumonia que piorava ou a custipação que aumentava.

Quanto mais se remava mais o vento empurrava a canoa de volta pra terra. O amarelo se agrudunhava na palamenta da canoa, fazia toda força do mundo, mas nada adiantava. Dali a pouco batia uma fraqueza no pobre coitado, o estômago começa a embrulhar, dava vontade de lançar e o infeliz tinha que chamar o “ugo”. O Mané Germano passava a mão na cuia, juntava uma cuiada de água gelada e atirava nas fuças do enjoado. Isso ele tentava uma ou duas vezes, se o molenga ficasse manhoso, coisa e tal e não arribasse, para não deixar pegar barda, ele metia uma boa cuiada em cima do quengo. Das duas uma: ou o sujeito ficava bom ou já dormia no fundo da canoa, por riba das redes ou do tafulho. O tafulho é uma espécie de estrado que se coloca no fundo de canoa .

Vez em quando vem uma onda grande por trás da canoa e o marinheiro novo salta do banco e tafulha os beiços no fundo da canoa, para o delírio dos mais velhos. Isto é muito comum. É assim que o meu pai batizava os filhos na pesca. Botava o coitadinho sentadinho numa taboinha que tem atravessada na proa da canoa. Se ele ficar bem agarradinho e não tafulhar, passou no teste, é valente e está apto para fazer novas viagens. Mas se o tanso tafulhar na primeira imbicada da canoa, esse nunca mais embarca.

 
* O conteúdo desta coluna não representa a opinião do Portal Balneário Virtual.
 
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