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Queria registrar da minha alegria e admiração pela evolução literária do meu colega Júlio César Garcia. Aquela do siri que ele contou semana passada foi show. Quanto à pesca da espada, ele esqueceu de dizer que a espada servia também pra surrar filho de pescador. Não tem aquela de bater com gato morto nas costas até miar? Pois é: filho de pescador apanha de peixe espada e nem bufa. Meu avô, vez em quando, enrolava uma espada na mão pra surrar os neto macriado. Cansei de levar espadadas na taba do pescoço, pelos lado das fuça, em derredó das zorelha, na rosca dos zovido ou por cima do pau do ranho.
No meu entender, o Júlio é a melhor revelação literária regionalista que apareceu por aqui, nos últimos tempos. Daqui pra frente é só aprimorar.
Precisamos divulgar a Cultura Papa-siri. Hoje em dia, qualquer exemplar de cultura regionalista, tem muito valor em qualquer lugar do mundo. O mundo todo dá muito valor a isso. Só por aqui que não há estímulo institucional para que isso se desenvolva, infelizmente.
Mas o que é a Cultura Papa-siri? O que é ser Papa-siri?
Papa-siri é o epíteto, a alcunha do povo que morava na beira da Praia de Camboriú. Por aqui, cada lugar tinha seu apelido.
Os Papa-siris da beira da Praia, eram os que mais sofriam gozação e portanto, acabaram ficando os mais conhecidos, desde que o epíteto virou moda. Antes, isso era uma ofensa gravíssima.
Parece que eu tive uma boa contribuição para essa moda, quando iniciei o Dicionário Papa-siri nos anos 80, revelando os inúmeros termos idiomáticos por nós falados.
Depois o povo nativo e erudito de Florianópolis, incorporou e atraiu para si e por acaso, o epíteto de Manezinho. Um monte de bobalhão foi atrás e criaram manezinho por todo lugar. Até aqui, certa vez, inventaram um troféu Manezinho de Balneário Camboriú. Coisa triste quando não se tem criatividade. A segunda cidade mais evoluída culturalmente no Estado, que é Itajaí, quase rouba o nosso epíteto. Hoje o PAPA-SIRI é mais forte em Itajaí do que aqui.
Como disse, cada lugar tinha o seu apilhido: eram os AMARELO da Barra, os GRACHARIM DO MATO, do Mato de Camboriú {sou do Mato sim sinhô} , os PAPA-FARINHA do Estaleiro, os PINGUÉLI da Vila Real, os ARIGÓ da Vila (Vila de Camboriú), os TAPADO do Tabuleiro, os BOCÓ da Canhanduba, os GAMBÁ da Praia Brava, os CADIADO de Itajaí, os DENGO-DENGO de Navegantes, os QUEBRA-TELHA de Ilhota, os PAPA-BARRO da Itaipava e para o sul, tinham os PAPA-PEXE(sic) ou PAPA-BAGRE de Tijucas e os PAPA-GOIABA de Tijucas para cima, por ali, e ainda, os GALHOFA dos Ganchos (Governador Celso Ramos). Essa coisa era tão séria, a ofensa era tão grande, que ainda não dá pra chamar algumas pessoas desses lugares por esses epítetos que ainda é um pé de briga.
Certa vez inventaram um desafio entre o Loca Cambriú, que era o nosso maior repentista, com um gaúcho, numa festa de igreja. Tudo ia sempre muito bem com o Loca no começo. Era o Loca não gostar da letra do cara, que ele já metia os pés pela mãos e a coisa desandava. O homem dizia a primeira bobagem que viesse à cabeça, estivesse onde estivesse. Essa festa era na Igreja Santa Inês. Em determinado momento o gaúcho chamou o Loca de “Papa-siri de Camboriú”.
Ah pra quê!!! Era o que faltava pro macriado do Loca dizer as macriação que ele tanto gostava. Então o Loca muito brabo, muito puto da cara, respondeu na lata:
EU SOU PAPA-SIRI, MAS SÔ DE CAMBORIÚ,
E TU COM ESSE LENÇO NO PESCOÇO QUE PARECE UM URUBU,
O QUÉ QUE TÁS FAZENDO AQUI, QUE AINDA NÃO FOSSE TOMÁ NO CU?
Deus-o-livre!!! Foi uma correria pra cima do Loca, foi um deus-nos-acuda, como nunca vi. O Haroldo Schultz, se atracou no microfone e arrancou das mãos dele, afinal eles estavam no pátio de uma igreja. O Loca muito brabo, que nem um siri na lata, queria matar o gaúcho que o ofendeu.
Por muito tempo, quando alguém nos chamava de Papa-Siri, a gente logo dizia: Eu sou Papa-siri, mas sô de Camboriú... O resto o nosso ofensor já entendia o que nós queríamos dizer. Éramos um dos poucos que tinha saída pra ofensa. Depois com o passar dos tempos, os outros começaram a inventar rimas e trocadilhos para se defender, ofendendo seus algozes. Foi onde a coisa deu uma parada. A rima dos “amarelo” eu ainda sei, só não vou dizer, é muito feia.
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