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Contava-se no Canto da Praia, quando eu era menino, que um escravo combinou com sua namorada para fugir. Ela também era escrava e morava lá na Barra.
Na madrugada combinada ele estaria na beira do rio Camboriú para buscá-la. Ele a chamaria com um grito, conforme combinaram previamente e ela assobiaria para ele.
Na foz do Rio Camboriú, sempre tinha uma ou duas, às vezes até mais bateiras amarradas a um pé de catingueiro, aroeira ou pitanga.
Mas por incrível coincidência e para azar do escravo, na madrugada da fuga não tinha nenhuma bateira à disposição.
Nervoso, andando de um lado para o outro, pensando no que fazer enquanto as horas passavam rapidamente.
De repente ele ouviu um assobio. Certamente era o assobio dela, pensou, pois foi assim que combinaram. Ela assobiaria e ele iria buscá-la do outro lado do rio. Logo imaginou que ela poderia estar precipitando as coisas.
Sem o equipamento necessário para atravessar o rio, o escravo ficou atormentado sem saber o que fazer.
Veio-lhe então uma idéia: cantaria uma letra que só ela pudesse entender.
Na sua língua desataviada, a canção saiu assim:
- Já ji vô, ji nega, ji não tenho, ji bateira!
Achou que com isso ela entenderia o recado.
Não demorou nada, ouviu outro silvo.
Mais nervoso ainda, o escravo cantou ainda mais alto.
- Já ji vô, ji nega, ji não tenho ji bateira!
Ouviu outro assobio como resposta. A cada assobio, ele cantava mais alto ainda.
Só que quem assobiava era uma coruja que ele pensava que era a sua amada.
Como ela não cessava de assobiar, ele atirou-se nas águas. Daí o desfecho ficou por conta da imaginação da memória dos meus relatores. Uns diziam que o escravo morreu afogado, outros diziam que onde ele mergulhou, ficou preso, entalado na lama ou em galhos de árvores. Outros diziam que neste local nasceu uma planta ou outra coisa qualquer. O que me resta concluir, é que, pelo número de pessoas que conhecem este fato, é possível que possa ter algo de verídico, até porque era uma coisa muito comum de acontecer o moço roubar uma moça para casar.
O detalhe lendário fica na imaginação daquele que acha que ele morreu afogado e foi mais uma história de amor frustrada.
*Corrêa, Isaque Borba - Poranduba Papa-Siri – ano 2.000
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