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|| Isaque de Borba Corrêa ||
 

Escritor, natural de Balneário Camboriú autor de mais de uma dezena de livros em diversas ciências. Membro da Academia Desterrense de Letras em Florianópolis e de Balneário Camboriú.

 
A geladeira que esquentou
 

Quando eu era rapaz piqueno aqui nessa Praia de Camboriú, já disse isso inúmeras vezes, meu pai deu um lance de tainha, tão grande, mas tão grande que ajeitou a nossa vida. Deixamos a categoria E de palpérrimo, pra D, que já é mais ou menos. Já contei aqui que ele encheu os bolsos de dinheiro e se mandou para Blumenau fazer compras, não foi? Pois é verdade, meus irmãos estão todos aí pra confirmar e não são poucos: só nove. Lá em Blumenau o velho comprou uma geladeira “Prosdócima”.
Por força do fenômeno lingüístico da ultracorreção, a gente fazia a indevida concordância de gênero. O nome Prosdócimo deveria concordar com o substantivo geladeira, que é feminino.

O vendedor prometeu que dentro de uma ou duas semanas, a fábrica iria entregá-la em nossa casa. Meu pai ficou muito desconfiado dessa idéia, mas acabou concordando, depois da garantia do próprio gerente da loja.
Mas a demora acabou maior, por conta das inúmeras encomendas de verão e isso causou um grande sofrimento na “familha” inteira. Ninguém agüentava mais a ansiedade da espera.

O Maneca, sujeito inteligente pra burro, já tinha um monte de idéias para a geladeira.
- Vô ispremê laranja, limão, melancia, botá açúca e fazê picolé pra vendê pros alemão na bera da praia na temporada.
-
O Dadinho não falava noutra coisa: “E eu vô fazê picolé de capilé, é mais chique”.
Todos os dias, aqueles póbris miseráveis iam pela beira da estrada abaixo encontrar o caminhão que viria trazer a geladeira e que sempre “já”estava chegando, segundo o vendedor.
Isso foi uma luta pro meu pai aturar a ansiedade dos bocós dos filhos dele, que churumingavam o dia todo pedindo a tal da giladera. Lá tinha o velho que ir a Itajaí telefonar, pra loja, pois aqui nem existia telefone, pra saber se “essa merda vem, ou eu vô te que í aí buscá ”.

E já chamava todo mundo na loja de trapaceiro, que vocês me minganaram, aquela coisa de gente além de braba, ignorante da beira da Praia desse Camboriú.

Sabe comé né, um atrasinho sempre acontece. Mas o velho desconfiado, já imaginava que a loja ia dar o calote nele, ainda mais com uma vara de filhos lhe enchendo o saco, ele quase aloprou.

Um dia os rapazi chegaram a ir até na no Bairro Fazenda em Itajaí, a pé, encontrar o caminhão da Prosdócimo e nada.

Mas, chegou o faustoso dia. O caminhão buzinou na beira da estrada geral e a rapaziada toda já foi de pronto atender. Isso que nem a primeira vez que toca telefone na casa: a rapaziada toda corre pra atender, depois ninguém mais quer saber daquilo.
A geladeira não passava de caixote arredondado nas pontas; verde abacate, meio oliva. A tramela de abrir parecia um pé-de-cabra. Eu que era o menor, tinha que me agrudunhar na ponta do cabo que com o peso ela abria: pááá!
Na noite que ela chegou o Genésio nem dormiu.

Passou a noite em claro, imaginado que iria botar “ki-suco” de manhã e a tarde iria tirar picolé. - Vô chupá picolé até o cu fazê bico – prometeu.

Naquela noite quente de primavera, de tanto matutar as coisas naquela insônia, o travesseiro esquentou. Vez em quando ele virava o travesseiro pra ficar com o lado geladinho na cabeça. Foi ai que o bocó teve a primeira idéia.

-“Vô botá essa merda na giladeira pra mode do bicho isfriá !!! Pensou alto - e acabou acordando a todos no sóton onde dormíamos. E não é que o imbecil enfiou o travesseiro dentro do congelador.

O problema que o tecido em contato com o alumínio do congelador grudunhou-se de uma tal forma, que não houve jeito de tirá-lo sem rasgar. Teve que fazer uma forcinha. Nessa forçadinha a fronha coitada, que já era de tecido fajuta, uma chitinha riscadinha vagabunda, pra lá de puída, rasgou-se toda. As penas que embuchavam o travesseiro, voou tudo, garrou por tudo que era lugar, ficou a maior nojeira do mundo, dentro e fora da geladeira.

A pobre da mãe, escutou aquele murmurinho de rapaz piqueno fazendo figura, levantou e veio bispar o que se passava. Quando viu aquele estrafego de pena misturada com marcela, espalhada pela casa, a velha meteu-lhe uma saraivada de tabefes em derredó das zorelha, na taba do pescoço, na rosca do zuvido, por riba do pau do ranho, enfim, onde tinha lugar pra enfiar a mão a danada da véia cobri-lhe de chapolentadas. O bicho foi se deitar com as orelhas ainda mais quente do que estavam.

O Zéca muito gozador, chalava do pobre coitado: “Ó- lho-lhó-lhó: quiria refrescá a cabeça e acabô saindo cas zorelha frevendo.”
E aconselhou: “Bota as parma da mão dentro da giladera pra mode isfriá e aparpa as zorelha cas mão, que vai isfriá mais digero.
Eita povo ordinário.

Semana que vem tem a história da máquina de costura. Hummmm... a bicha ao invés de bordá e chuliá, enrolava a linha toda na lançadeira. Ah Gemano brabo! Mais uma coisa pra incomodá o velho, mais uma viagem a Blumenau. Mais uma semana de tribulação Aguarde.

 
* O conteúdo desta coluna não representa a opinião do Portal Balneário Virtual.
 
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